Fanny 100

"A carta de Kiev"

Gustavo Sugahara


O primo Cláudio Ricca enviou uma carta manuscrita que mencionava a Fanny, mas que estava na casa da irmã dela no Porto.

Meu primeiro impulso foi utilizar a tecnologia disponível para tentar decifrar o documento.

Como podem ver, o resultado foi bastante impressionante, tendo em conta os desafios, nomedamente: (i) carta antiga e manuscrita, (ii) escrita em duas línguas diferentes, alemão e russo.

Mesmo assim, ainda faltava muito para encontrar algum sentido nas palavras. Felizmente temos uma fantástica rede familiar de pessoas muítissimo qualificadas capazes de "solucionar" o desafio de forma muito mais eficiente do que a máquina.

Precisava de algumas qualidades pouco comuns: Alguém capaz de falar russo e português e, ao mesmo tempo, ser capaz de compreender cirílico manuscrito. Lembrei da prima Esther Andrade, não só domina ambas as línguas, mas também é professora (portanto, acostumada a decifrar letras de alunos - em português). Já a introdução em Alemão foi traduzida pela Susanne Lopes (tia Suzi).

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Kiev, 27 de maio de 78
 
(parte escrita em Alemão)
 
Minha querida prima Fanny!
Muito obrigada pela sua linda carta. Mais uma vez ganhei a língua alemã. Agora eu esqueci tudo, o que é uma pena.
Peça para a prima Lisa, irmã do Fried, para ela ser gentil e traduzir minha carta.
Com caloroso cumprimento, sua prima , Ira.
 
(parte escrita em Russo)
 
Querida Lisochka!
 
Das palavras da Ana e da Guena (Lena?) com as quais me correspondo há já alguns anos, você certamente sabe de mim. Eu sou a filha de Raissa Levenshtein, prima da vossa mãe. e prima de Ruvin Gelerther- pai da Fanny e da Noemi!
 
A minha mãe manteve sempre ligação com o Ruvin e escreviam -se quando ele vivia em Berlim. Você lembra-se da minha tia Sónia G.....que vivia em Sofia(?) Sofi(?) até à guerra?
 
Quando o meu pai morreu-Ruvin Gelerther ajudou muito a mãe, ele mandou uma máquina na qual ela aprendeu a costurar e com isso conseguiu manter sozinha toda a família. Isso foi nos difíceis anos 1926-1928 e eu lembro-me disso apesar de ser criança. Lembro-me das fotografias da Fanny e da Noemi que o Ruvin nos enviou e lembro-me de um acontecimento que ele escreveu na carta que um dia com a mulher ( mãe da Fanny e da Noemi) foram ao teatro e que as meninas ficaram com a ama e que ela não prestou atenção e que uma das meninas engoliu uma pulseira ....... de ouro (dourada) . Foi uma grande preocupação até ela sair. Estas são as minhas recordações da infância delas. Eu e a minha mãe falávamos muitas vezes sobre o Ruvin e ela lembrava-se sempre dele com muita cordialidade e amor.Por isso estou muito feliz que estabeleciam contacto e que me enviaram fotos das crianças deles.
 
Antes de tudo agradeço -lhe que traduziu para ele a minha carta.
Muitos cumprimentos para si e para o seu marido e os melhores votos para a Fanny e para a Noemi e todos...................................(aqui está escrita uma palavra ou duas muito apagadas que não consegui perceber).
 
Pois noutro tempo tivemos uma família assim.
 
Mais uma vez obrigada.
 
Ira

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A carta é bestante curiosa. Não sabemos porque estava no Porto, e quem é exatamente a pessoa que enviou a carta, de Kiev, em 1978, período relativamente recente em relação à separação da família. Há também uma informação não muito clara sobre o possível parentesco distante entre Ruvin e Etja (tinham primos em comum?).

Em conversa com a Fanny também avançamos pouco. Ela recorda a história narrada e afirmou ter sido ela quem engoliu a pulseira dourada (devidamente expelida depois de boas doses de laxativos).



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